O Open Finance é a regra do Banco Central que obriga as instituições a enviar seus dados financeiros para outro banco quando você pede, e permite que um aplicativo movimente dinheiro de uma conta que fica em outra instituição. Tudo acontece por autorização sua, com prazo e finalidade definidos, e pode ser cancelado a qualquer momento.

O sistema já tem escala. Segundo a página oficial do BC, em maio de 2026 havia 116 milhões de autorizações de compartilhamento de dados, 6 bilhões de chamadas de API por semana e R$ 4 bilhões por mês em transações Pix feitas pelo Open Finance. Mais de 700 instituições participam, o que cobre 99% dos clientes de instituições autorizadas, segundo o BC.

O que dá para fazer com o Open Finance

São duas funções diferentes, e vale separá-las porque os riscos e os cuidados também são diferentes.

FunçãoO que aconteceExemplo de uso
Compartilhamento de dadosUm banco envia para outro, a seu pedido, dados que guarda sobre vocêLevar extratos, fatura do cartão e histórico de crédito para conseguir uma oferta de empréstimo
Serviços de pagamentoO app de um banco inicia um pagamento que sai de uma conta em outra instituiçãoPagar a fatura no banco A usando saldo que está no banco B, sem abrir o app do banco B para digitar dados

Os dados que podem ser compartilhados, segundo o BC, incluem extratos de contas, faturas de cartão, operações de crédito, investimentos e operações de câmbio. Além deles, há os dados públicos de produtos, como tarifas e taxas, que não exigem autorização de ninguém.

Como trazer seus dados para outro banco

Este é o fluxo descrito pelo Banco Central na página para clientes. Os nomes dos botões mudam de banco para banco, mas as etapas são obrigatórias em todos:

  1. Abra o app do banco que vai receber os dados. É sempre o banco interessado em conhecer melhor seu perfil que inicia o processo.
  2. Procure "Open Finance" ou "Trazer meus dados". Em alguns apps, a opção fica no menu de perfil ou de crédito.
  3. Escolha o banco de onde os dados vão sair.
  4. Autorize (consentimento). O banco receptor mostra quais dados quer, para quê e por quanto tempo. Desmarque o que não for necessário, quando o app permitir.
  5. Autentique no banco de origem. Você é levado automaticamente ao app ou site do banco que guarda os dados e entra com a senha ou biometria de sempre. O banco receptor não vê nada dessa etapa.
  6. Confirme o resumo. O banco de origem mostra os dados envolvidos, quem vai recebê-los e o prazo da autorização. Só depois dessa conferência o processo é concluído.
  7. Volte ao app receptor. Ele informa que a autorização foi efetivada e começa a usar os dados.

O ponto de atenção está nas etapas 5 e 6. Se em algum momento um site ou app pedir a senha do outro banco fora do ambiente oficial dele, o processo não é do Open Finance.

Como pagar usando o saldo de outro banco

O exemplo usado pelo próprio BC é o de quem está sem saldo para pagar a fatura em um banco, mas tem dinheiro em outro:

  1. No app do banco onde você quer receber o dinheiro, procure "Trazer dinheiro" ou "Open Finance".
  2. Escolha o banco onde o dinheiro está.
  3. Autorize a transação no app que iniciou o processo.
  4. Você é levado ao app do banco de origem para autenticar e confirmar.
  5. Volte ao primeiro app, que informa a conclusão.

O banco que começa o processo funciona como iniciador de pagamento. É a mesma estrutura usada em compras on-line pagas com Pix sem sair da loja e no Pix por aproximação, explicados no guia de como funciona o Pix.

Como ver e cancelar autorizações

As autorizações não duram para sempre: cada uma tem um prazo, que deve ser adequado à finalidade. Mesmo assim, vale revisar de tempos em tempos.

  1. Abra o app de qualquer um dos dois bancos envolvidos. Segundo o BC, o cancelamento pode ser feito em qualquer um deles.
  2. Procure a área de Open Finance, geralmente chamada de "Autorizações", "Compartilhamentos" ou "Gerenciar consentimentos".
  3. Veja a lista: quem recebe, quais dados, até quando.
  4. Toque na autorização que não usa mais e escolha "Cancelar" ou "Encerrar compartilhamento".

Cancelar a autorização interrompe novos envios. Os dados já recebidos pela outra instituição seguem as regras da LGPD, inclusive o direito de pedir informação sobre o tratamento, como explica o guia de o que é a LGPD.

O que o banco que recebe os dados não vê

  • Sua senha e sua biometria: a autenticação acontece só no banco de origem.
  • Dados que você não autorizou: o envio se limita ao que aparece no resumo de confirmação.
  • Dados de outros bancos: cada autorização vale para um par de instituições, uma que envia e outra que recebe.

Segundo o BC, os dados não passam por nenhum ambiente intermediário, nem pelo próprio Banco Central. O modelo brasileiro é descentralizado: não existe uma base central que reúna as informações de todos os clientes.

Por baixo: APIs padronizadas

A troca acontece por APIs padronizadas, interfaces técnicas pelas quais um sistema pede dados a outro em um formato combinado. O padrão único permite que mais de 700 instituições conversem sem contratos individuais entre cada par. O conceito é explicado em o que é uma API.

O BC conta que estudou modelos de outros países ao desenhar o brasileiro: o padrão único definido por uma autoridade central, como no Reino Unido; a regulação de aspectos técnicos, como no México; e a reciprocidade entre instituições, como na Austrália e na Índia. A novidade brasileira foi ampliar o escopo para investimentos e câmbio, além de contas e crédito.

Linha do tempo

AnoO que entrou, segundo o BC
2020Regulamentação do Pix e do Open Finance
2021Criação da infraestrutura; início do compartilhamento de dados públicos e de dados de clientes
2022Serviços de pagamento com Pix
2023Dados de investimentos; regras de monitoramento
2024Dados de câmbio, novos serviços de pagamento e nova estrutura de governança
2025Pix por aproximação, Pix Automático e novos participantes no compartilhamento de dados

A governança é da Associação Open Finance, que publica o Dashboard do Cidadão com números de uso e de desempenho.

Quando compartilhar vale a pena (e quando não)

Faz sentido quando você vai pedir crédito em um banco onde tem pouco histórico. O banco receptor pode ver sua movimentação e sua pontualidade em outras instituições, e isso pode resultar em uma oferta melhor. O BC cita também a portabilidade de salário e de empréstimos com menos papelada.

Faz sentido para apps de organização financeira que reúnem contas e cartões em uma tela só, desde que você saiba qual empresa está por trás do app.

Pense duas vezes se a autorização pede mais dados do que a finalidade exige, ou um prazo longo para um uso pontual. Uma simulação de empréstimo não precisa de acesso por um ano.

Não faça se o pedido chegou por mensagem, ligação ou link. O processo legítimo começa sempre dentro do app de um banco que você mesmo abriu.

Golpes que usam o nome do Open Finance

O nome técnico virou isca. Os padrões mais comuns de abordagem envolvem pedidos de "confirmação" ou "atualização" por fora do app:

  • Ligação da "central do Open Finance": segundo o BC, todo o processo é feito no app ou no site dos bancos envolvidos, sem etapa por telefone. Desligue e procure o banco pelo número oficial.
  • Link para "liberar o compartilhamento": sites falsos imitam a tela de autenticação para capturar a senha.
  • Pedido de código recebido por SMS: códigos de autenticação nunca devem ser repassados a terceiros.

Os sinais de alerta são os mesmos de qualquer fraude bancária, detalhados em como identificar phishing. A proteção do e-mail e do celular com autenticação em dois fatores dificulta que alguém assuma suas contas.

Fontes