A Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018) define o que empresas e órgãos públicos podem fazer com dados pessoais e quais direitos você tem sobre eles. As sanções administrativas valem desde agosto de 2021, e a autoridade que as aplica mudou de status em 2026: a Lei nº 15.352, de 25 de fevereiro de 2026, converteu a Medida Provisória 1.317/2025 e transformou a ANPD em Agência Nacional de Proteção de Dados, uma agência reguladora com a mesma sigla.
Este texto é informativo e não substitui orientação jurídica. As regras foram conferidas em outubro de 2026 no texto da lei, no Planalto, e nas páginas da ANPD.
O básico em quatro termos
- Dado pessoal: qualquer informação ligada a uma pessoa natural identificada ou identificável, como nome, CPF, endereço, IP e histórico de compras.
- Dado sensível: origem racial ou étnica, religião, opinião política, filiação sindical, saúde, vida sexual, dado genético ou biométrico. Tem regras mais restritas.
- Controlador: quem decide por que e como os dados são usados, como a loja, o banco ou o aplicativo. É a ele que você faz pedidos.
- Encarregado: a pessoa ou equipe indicada pelo controlador para ser o canal com os titulares e com a ANPD. O contato deve estar publicado, em geral na política de privacidade.
Oito mitos sobre a LGPD, e o que diz a lei
Mito 1: "Toda empresa precisa do meu consentimento"
Fato: o consentimento é só uma das dez bases legais previstas na lei. Também permitem o tratamento, entre outras, o cumprimento de obrigação legal, a execução de contrato, o exercício de direitos em processo, a proteção do crédito e o legítimo interesse do controlador. Por isso o banco pode consultar o seu CPF em um pedido de empréstimo sem pedir autorização à parte.
O que a lei exige é que exista uma base válida e que a finalidade seja informada. Quando a base é o consentimento, ele precisa ser livre, informado e para finalidade determinada, e pode ser revogado.
Mito 2: "Se a empresa tem uma base legal, pode compartilhar os dados à vontade"
Fato: os princípios de finalidade e necessidade continuam valendo. Em junho de 2026, a ANPD abriu processo sancionador contra a Claro por indícios de compartilhamento excessivo de dados de clientes com a Serasa, para o desenvolvimento de metodologias de análise de crédito, além de falta de transparência e de dificuldade de acesso ao encarregado. A Serasa passou a ser alvo de nova fiscalização sobre transparência.
Segundo a própria ANPD, a Serasa foi a empresa com mais denúncias recebidas pela autoridade e a segunda em petições de titulares entre o segundo semestre de 2023 e o primeiro de 2025.
Mito 3: "A LGPD só pega empresa grande"
Fato: a primeira sanção da ANPD, em julho de 2023, foi aplicada a uma microempresa, a Telekall Infoservice, que oferecia listas de contatos de WhatsApp de eleitores para campanha na eleição municipal de 2020 em Ubatuba (SP). A empresa recebeu advertência por não ter encarregado e duas multas de R$ 7.200, uma por tratar dados sem base legal e outra por não atender às requisições da fiscalização, num total de R$ 14.400.
Por ser microempresa, cada multa ficou limitada a 2% do faturamento bruto, conforme o artigo 52 da lei. A ANPD prevê regras simplificadas para agentes de pequeno porte, mas não isenção.
Mito 4: "Órgão público não pode ser punido"
Fato: pode, embora sem multa em dinheiro. A lista de decisões da ANPD inclui processos encerrados contra o INSS, o Ministério da Saúde, secretarias estaduais de Saúde de Santa Catarina, de Educação do Distrito Federal e de Assistência Social de Pernambuco, entre outros. As sanções possíveis para o poder público incluem advertência, publicização da infração e bloqueio ou eliminação dos dados.
Mito 5: "As multas da LGPD são simbólicas"
Fato: a lei limita a multa simples a 2% do faturamento no Brasil, até R$ 50 milhões por infração, e o cálculo segue o Regulamento de Dosimetria (Resolução CD/ANPD nº 4, de fevereiro de 2023). Em 25 de agosto de 2026, a ANPD multou a ByteDance, dona do TikTok, em R$ 153,7 milhões por cinco infrações ligadas ao tratamento de dados de crianças e adolescentes sem base legal válida, no uso do aplicativo com e sem cadastro.
Além da multa, a decisão determinou a eliminação dos dados coletados irregularmente e um plano de conformidade, com configurações de privacidade mais restritivas por padrão para menores de 16 anos. A ByteDance podia recorrer ao Conselho Diretor em até dez dias úteis.
Mito 6: "Vazamento é azar da empresa, não infração"
Fato: a lei exige medidas de segurança e comunicação de incidentes. Pelo Regulamento de Comunicação de Incidente (Resolução CD/ANPD nº 15, de abril de 2024), o controlador tem três dias úteis, contados de quando soube que o incidente atingiu dados pessoais, para avisar a ANPD e os titulares, quando houver risco ou dano relevante. Se não for possível avisar cada titular, a comunicação deve ficar em canais públicos, como o site, por pelo menos três meses.
Em julho de 2026, a ANPD abriu processo sancionador contra o Instituto Saúde e Cidadania (Isac), organização social que administra unidades públicas de saúde, após um ataque de ransomware que, segundo a própria entidade, atingiu cerca de 500 mil registros de pacientes. A ANPD apontou falta de medidas de segurança adequadas e um aviso no site que não informava a data do incidente, os dados afetados nem as medidas adotadas.
Mito 7: "Dado público pode ser usado para qualquer coisa"
Fato: a lei permite tratar dados de acesso público, mas considerando a finalidade, a boa-fé e o interesse público que justificaram a disponibilização. Um dado publicado em diário oficial não vira automaticamente matéria-prima para listas de marketing.
Mito 8: "Posso mandar apagar qualquer dado meu"
Fato: o direito de eliminação vale para dados tratados com base no consentimento e para dados desnecessários, excessivos ou tratados em desconformidade com a lei. A empresa pode manter dados exigidos por obrigação legal, como registros fiscais, ou necessários para se defender em processo. Nesse caso, precisa explicar por quê.
Seus direitos, em uma tabela
O artigo 18 da LGPD lista o que você pode pedir ao controlador, a qualquer momento e de graça:
| Direito | Exemplo de uso |
|---|---|
| Confirmação e acesso | Descobrir que dados uma loja guarda sobre você |
| Correção | Atualizar endereço ou nome errado em um cadastro |
| Anonimização, bloqueio ou eliminação | Excluir dados de um serviço que pede mais do que precisa |
| Portabilidade | Levar seus dados para outro fornecedor, conforme regulamentação da ANPD |
| Eliminação de dados do consentimento | Apagar o cadastro de uma newsletter que você assinou |
| Informação sobre compartilhamento | Saber com quais empresas seus dados foram divididos |
| Revogação do consentimento | Retirar uma autorização dada antes |
| Revisão de decisão automatizada | Pedir revisão de um score ou perfil feito só por algoritmo (artigo 20) |
A revisão de decisões automatizadas ganhou peso com o uso de inteligência artificial em crédito e seleção. O tema é tratado em regulação da inteligência artificial.
Roteiro: como pedir acesso ou exclusão e o que fazer se ignorarem
- Ache o canal do encarregado na política de privacidade do site ou aplicativo. Se não houver nenhum, isso por si só é um indício de irregularidade: a falta de informação sobre o encarregado aparece nos casos Isac e Claro.
- Faça o pedido por escrito, identificando-se e dizendo exatamente o que quer: "solicito confirmação e cópia completa dos dados pessoais que vocês tratam a meu respeito, com a finalidade e a base legal de cada tratamento".
- Guarde a prova: protocolo, e-mail enviado, print do formulário, data.
- Aguarde a resposta. Para confirmação e acesso, a lei prevê resposta imediata em formato simplificado ou declaração completa em até 15 dias.
- Se não houver solução, abra uma petição de titular na ANPD, pelo canal do cidadão no site da autoridade (gov.br/anpd). A Resolução CD/ANPD nº 1/2021 exige comprovar que o pedido foi feito antes ao controlador e não foi resolvido no prazo; quando não houver outra prova, aceita-se a autodeclaração.
- Para prejuízo concreto, a LGPD não impede a busca de reparação na Justiça ou em órgãos de defesa do consumidor.
Se o problema não é um pedido seu, mas uma irregularidade que você percebeu (um site expondo dados, por exemplo), o caminho é a denúncia, um canal separado da petição no mesmo site.
O que mudou em 2025 e 2026
- ANPD virou agência reguladora (Lei nº 15.352/2026), com carreira própria de Regulação e Fiscalização de Proteção de Dados.
- ECA Digital em vigor desde 17 de março de 2026 (Lei nº 15.211/2025), com a ANPD encarregada de fiscalizar a proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais. Em 12 de agosto de 2026, a autoridade mandou o Discord suspender as transmissões ao vivo no Brasil como medida preventiva, e a suspensão foi mantida após recurso.
- Monitoramento de encarregados: em 2026, a ANPD concluiu a primeira fase de uma verificação de 56 empresas e órgãos; 21 não responderam e foram encaminhados à área de sanção.
- Regras de fiscalização em revisão: a atualização do Regulamento de Fiscalização e do Processo Administrativo Sancionador ficou em consulta pública até 26 de outubro de 2026.
O que fazer com os seus dados já espalhados
Golpistas usam dados vazados para parecer legítimos, citando seu nome completo, seu banco e parte do CPF. Por isso a LGPD e a segurança pessoal andam juntas: peça a exclusão de cadastros que você não usa, forneça só o necessário e desconfie de mensagens que "sabem demais". Os sinais desse tipo de golpe estão em como identificar phishing, e as defesas para as suas contas, no plano de segurança digital.
Perguntas frequentes
Uma loja pode exigir meu CPF para dar desconto?
Pode pedir, desde que informe a finalidade, como programa de fidelidade ou análise de crédito, e use o dado só para isso. Se a finalidade não for explicada, peça a informação ao encarregado. Você pode recusar e abrir mão do desconto, e pode revogar depois o consentimento dado para fins de marketing.
Recebi aviso de que meus dados vazaram. Tenho direito a quê?
A empresa deve informar, em linguagem clara, a natureza dos dados afetados, os riscos e as medidas adotadas, conforme o regulamento de incidentes. Você pode pedir acesso aos dados que ela guarda sobre você e, se a comunicação não vier ou for vaga, registrar denúncia na ANPD.
Uma pequena empresa precisa de encarregado?
Em regra, sim. A ANPD prevê dispensa para agentes de pequeno porte, que precisam manter um canal de comunicação com os titulares. No caso Telekall, a microempresa foi advertida por não ter encarregado e por não comprovar que não fazia tratamento de alto risco, condição para a dispensa.
A ANPD resolve o meu caso individual?
A petição pode levar a ANPD a atuar junto à empresa, mas a autoridade não indeniza nem condena a pagar danos ao titular. Para reparação financeira, o caminho é a Justiça ou o Procon.
Fontes
- Presidência da República. Lei nº 13.709/2018 (LGPD).
- Presidência da República. Lei nº 15.352, de 25 de fevereiro de 2026.
- ANPD. Decisões em processos sancionadores.
- ANPD. Comunicado à imprensa: primeira sanção (Telekall), jul. 2023.
- ANPD. ANPD multa TikTok em R$ 153,7 milhões (25 ago. 2026).
- ANPD. Processo sancionador contra organização social por dados de 500 mil pacientes (8 jul. 2026).
- ANPD. Processo para sancionar Claro por compartilhamento de dados com a Serasa (8 jun. 2026).
- ANPD. ECA Digital completa um ano.
- ANPD. Monitoramento de encarregados.
- ANPD. Resolução CD/ANPD nº 1/2021.
- ANPD. Comunicação de incidente de segurança.
- ANPD. Regulamento de dosimetria e aplicação de sanções.




