A parte de trás de um smartwatch tem dois tipos de sensor que fazem quase todo o trabalho de saúde: LEDs com fotodiodos, que leem o fluxo de sangue pela luz, e eletrodos, que captam a atividade elétrica do coração. O resto (passos, sono, calorias, "idade cardiovascular") é cálculo feito a partir desses sinais e do acelerômetro.

A diferença que importa para quem usa é outra: alguns recursos são de bem-estar, sem compromisso de precisão médica, e outros passaram por avaliação regulatória. No Brasil, a Samsung, por exemplo, publica os números de registro na Anvisa dos apps de pressão e de ECG. Abaixo, como cada medição funciona e em qual categoria ela cai, com base nas páginas oficiais da Apple e da Samsung em outubro de 2026.

O sensor óptico: batimentos pela luz

A técnica se chama fotopletismografia (PPG). Segundo a Apple, o relógio usa LEDs verdes e fotodiodos para medir quanto sangue passa pelo pulso: a cada batimento, o fluxo aumenta e a absorção de luz verde sobe. Os LEDs piscam centenas de vezes por segundo, e o software transforma essas variações em batimentos por minuto. O Apple Watch mede de 30 a 210 BPM e, no sono, pode usar LEDs infravermelhos.

Esse mesmo sinal alimenta vários recursos: frequência cardíaca, variabilidade da frequência cardíaca (VFC), alertas de ritmo irregular, estimativa de oxigênio e, nos modelos mais recentes, a detecção de padrões de hipertensão.

Onde o sensor óptico erra

Um estudo publicado em 2020 na npj Digital Medicine comparou seis dispositivos de pulso (entre eles Apple Watch 4, Fitbit Charge 2, Garmin Vivosmart 3 e Xiaomi Mi Band 3) com um eletrocardiograma de referência. Os resultados:

  • o erro absoluto durante atividade física foi, em média, 30% maior que em repouso;
  • houve diferenças significativas entre aparelhos e entre tipos de atividade;
  • não houve diferença estatisticamente significativa de precisão entre os tons de pele avaliados.

Na prática: para frequência em repouso e caminhada, o relógio costuma servir; em treino intervalado ou musculação, quem precisa de precisão usa cinta peitoral. A pulseira bem ajustada, acima do osso do pulso, também faz diferença, e a Apple lista o encaixe como primeira verificação quando a leitura falha.

ECG no pulso: um circuito com o dedo

O ECG funciona de outro jeito. No Apple Watch, há eletrodos na Digital Crown e na parte traseira; ao tocar a coroa com o dedo, fecha-se um circuito que passa pelo coração, e o relógio registra os impulsos elétricos. O resultado é um eletrocardiograma de derivação única, segundo a Apple, enquanto o exame de consultório usa 12 derivações.

Essa leitura serve para uma pergunta específica: o ritmo naquele momento parece fibrilação atrial ou ritmo sinusal? Ela não detecta infarto. A Samsung diz isso expressamente na página do app: o app de pressão não detecta sinais de ataque cardíaco, e nenhum dos dois é indicado para menores de 22 anos.

RecursoApple WatchGalaxy Watch
ECGSeries 4 ou posterior (exceto SE) e todos os Ultra; uso a partir de 22 anosGalaxy Watch Active2 ou posterior (exceto Galaxy Fit), com celular Galaxy de Android 12 ou superior; 30 segundos com o dedo no botão
Alerta de ritmo irregularDisponível no BrasilDisponível no Brasil (IHRN), roda em segundo plano e sugere fazer um ECG
Registro informado na página brasileira—Anvisa: BP App 81549259004; ECG App 81549259006

A página de disponibilidade de recursos da Apple lista o Brasil para ECG, notificações de ritmo irregular, notificações de hipertensão, notificações de apneia do sono e o app Oxigênio no Sangue.

Pressão arterial: estimativa calibrada, não medição

Nenhum relógio de pulso comum mede pressão como o manguito, que comprime a artéria. Há duas abordagens no mercado:

Samsung (Samsung Health Monitor). O app usa o sensor PPG para estimar pressão sistólica e diastólica, mas exige calibração com um medidor tradicional de braço a cada quatro semanas, com três medições em 30 minutos. A Samsung avisa que o app não diagnostica hipertensão, que não é recomendado para quem tem diabetes, insuficiência cardíaca ou usa anticoagulantes, e que ninguém deve mudar remédio ou dose sem falar com o médico.

Apple (notificações de hipertensão). O Apple Watch não mostra um número de pressão. Segundo a Apple, o algoritmo analisa como os vasos reagem aos batimentos ao longo de períodos de 30 dias e avisa se identificar padrões de hipertensão crônica. O recurso não é recomendado para menores de 22 anos, gestantes e quem já tem diagnóstico de hipertensão, e a Apple informa que pode não estar disponível no Series 12 e no Ultra 4 em algumas regiões, por aprovações regulatórias em andamento.

Se receber um alerta, o passo seguinte é medir com aparelho de braço validado e procurar atendimento, não ajustar tratamento pelo relógio.

Oxigênio no sangue e apneia do sono

A estimativa de oxigênio (SpO₂) também é óptica: compara como o sangue absorve luz de comprimentos de onda diferentes. A Apple é explícita: o app Oxigênio no Sangue não se destina ao uso médico e serve apenas para bem-estar. Oxímetro de dedo continua sendo a referência doméstica.

As notificações de apneia do sono são outro caso. Na Apple, estão no Series 9 ou posterior, Ultra 2 ou posterior e SE 3, e buscam indícios de apneia moderada a grave em maiores de 18 anos sem diagnóstico prévio. Na Samsung, o recurso exige Galaxy Watch4 ou posterior com Wear OS 5.0. Em ambos, o alerta é motivo para procurar um médico e fazer polissonografia, não um diagnóstico.

Passos, sono e calorias

  • Passos vêm do acelerômetro, que detecta o balanço do braço. Empurrar carrinho de supermercado, com o braço parado, pode contar menos; gesticular pode contar mais.
  • Sono é estimado por movimento e frequência cardíaca. As fases (leve, profundo, REM) são inferidas, não medidas; o exame que mede fases é a polissonografia, com sensores na cabeça.
  • Calorias são a estimativa mais frágil: dependem de peso, idade e frequência cardíaca informados e de fórmulas do fabricante. Use para comparar seus próprios dias, não para calcular dieta.

Mitos x fatos

MitoFato
"O relógio faz eletro igual ao do hospital"É derivação única, focada em ritmo; o exame clínico usa 12 derivações
"O Apple Watch mede pressão"Ele emite notificações por padrões de 30 dias, sem mostrar valores
"O Galaxy Watch dispensa o aparelho de pressão"Ele precisa de calibração com aparelho de braço a cada quatro semanas
"Sensor de pulso não funciona em pele negra"O estudo de 2020 na npj Digital Medicine não encontrou diferença significativa entre tons de pele; movimento pesou mais
"Oxigênio do relógio substitui oxímetro"A Apple classifica o app como bem-estar, não uso médico

Compatibilidade e privacidade

O ecossistema decide a compra antes da ficha técnica. Apple Watch só funciona com iPhone; segundo a Apple, o Series 12, o Ultra 4 e o SE 3 exigem iPhone 11 ou posterior com iOS 27. Os recursos médicos do Galaxy Watch exigem celular Samsung Galaxy.

Relógios com Wear OS funcionam com Android em geral, mas cada fabricante limita alguns recursos ao próprio celular. O roteiro para escolher o celular está em como escolher um celular.

Dados de saúde são dados pessoais sensíveis pela LGPD, com regras mais rígidas de tratamento e consentimento; o que a lei exige das empresas está em o que é a LGPD. Antes de conectar o relógio a apps de terceiros (academias, seguradoras, plataformas de corrida), veja que dados eles leem e se é possível revogar o acesso. A bateria do relógio segue a mesma química do celular; os cuidados estão em como cuidar da bateria.

Perguntas frequentes

Recebi alerta de ritmo irregular. O que faço?

Faça um ECG pelo relógio, se ele tiver o recurso, e leve o PDF ao médico. Na Apple e na Samsung, o alerta busca padrões compatíveis com fibrilação atrial, que precisa de avaliação clínica. Se houver dor no peito, falta de ar ou desmaio, procure emergência sem esperar o relógio.

Tenho hipertensão diagnosticada. As notificações da Apple servem para mim?

Não. A Apple não recomenda o recurso para quem já tem diagnóstico de hipertensão. Para acompanhar a pressão, a referência é o aparelho de braço validado, com as medições combinadas com o médico.

O relógio da Samsung funciona com iPhone?

Os recursos do Samsung Health Monitor (pressão e ECG) exigem um celular Galaxy com Android 12 ou superior, segundo a página brasileira da Samsung.

Por que o relógio mostrou batimento alto parado?

Encaixe solto, pulso frio ou movimento recente distorcem a leitura óptica, e a própria Apple diz que leituras ocasionalmente muito altas ou muito baixas podem ocorrer. Reajuste a pulseira e meça de novo em repouso; se a leitura alta persistir com sintomas, procure atendimento.

Fontes