Bitcoin e Ethereum usam a mesma ideia de base, uma blockchain pública, mas foram desenhados para coisas diferentes. O Bitcoin é um sistema de dinheiro eletrônico com regras deliberadamente estreitas. O Ethereum é uma plataforma para rodar programas, os contratos inteligentes, e muda com bem mais frequência.

Este comparativo é técnico e informativo. Não traz preço, previsão de valorização nem indicação de compra; criptoativos são voláteis e podem perder todo o valor. Se os termos bloco, hash e consenso forem novos, comece por o que é blockchain.

A comparação em uma tabela

AspectoBitcoinEthereum
LançamentoJaneiro de 2009Julho de 2015
Proposta originalDinheiro eletrônico ponto a ponto (texto de Satoshi Nakamoto, 2008)Plataforma para aplicações e contratos inteligentes
Unidade nativaBTC (menor fração: satoshi)ETH (menor fração: wei)
ConsensoProva de trabalhoProva de participação, desde 15/09/2022
Intervalo entre blocosMédia de 10 minutosSlots fixos de 12 segundos
Modelo de registroUTXO (saídas não gastas)Contas com saldo e estado
ProgramaçãoScript limitado, sem laçosMáquina virtual (EVM) com linguagens como Solidity
EmissãoLimite de 21 milhões; recompensa cai pela metade a cada 210.000 blocosSem teto fixo; emissão para validadores e queima de parte das taxas (EIP-1559)
Segunda camadaLightning NetworkRollups (Arbitrum, Optimism, Base e outros)
Ritmo de mudançaConservador; mudanças de consenso raras (exemplo: Taproot, 2021)Atualizações quase anuais (Dencun 2024, Pectra 2025, Fusaka 2025)
Software de referênciaBitcoin Core (versão 31.1, de julho de 2026)Vários clientes independentes de execução e de consenso

O resto do texto explica cada linha e o que ela muda na prática.

Como cada rede guarda o "saldo"

Bitcoin: moedas como pedaços. O protocolo não tem conta nem saldo. O que existe são saídas de transações ainda não gastas, as UTXOs. Pagar 0,3 BTC com uma UTXO de 0,5 BTC consome a saída inteira e cria duas novas: 0,3 para o destinatário e o troco para uma nova saída sua, descontada a taxa.

Ethereum: contas com estado. Cada endereço tem saldo, um contador de transações e, no caso dos contratos, código e dados armazenados. A EVM, executada por todos os nós, aplica cada transação e atualiza esse estado global.

Na prática, o modelo UTXO facilita verificar transações em paralelo e dificulta seguir o "dinheiro de alguém" quando a carteira usa endereços novos a cada troco. O modelo de contas torna simples programar regras como "este contrato só libera o valor se a condição X ocorrer".

Consenso: energia contra garantia

Prova de trabalho no Bitcoin

Mineradores testam trilhões de combinações até achar um hash abaixo de um alvo. A dificuldade é recalculada a cada 2.016 blocos para manter a média de 10 minutos. Quem quiser reescrever o histórico precisa refazer esse trabalho mais rápido que o resto da rede, o que exigiria hardware especializado (ASICs, como o da foto) e energia em escala industrial.

Prova de participação no Ethereum

Validadores depositam ETH como garantia e são sorteados para propor e atestar blocos a cada slot de 12 segundos. Quem age de forma desonesta, por exemplo assinando dois blocos conflitantes, perde parte do depósito (slashing). Segundo a página oficial da Fusão no ethereum.org, a troca reduziu o consumo de energia da rede em cerca de 99,95%.

A atualização Pectra, ativada em 7 de maio de 2025, mudou uma regra antiga: o saldo efetivo máximo de um validador subiu de 32 para 2.048 ETH (EIP-7251). O mínimo para ativar um validador continua sendo 32 ETH.

PontoProva de trabalho (Bitcoin)Prova de participação (Ethereum)
Recurso que garante a redeEnergia elétrica e hardwareETH depositado como garantia
Punição para fraudeGasto de energia sem recompensaPerda de parte do depósito
Crítica mais comumConsumo de energia e concentração em grandes fazendasConcentração de depósitos em poucos provedores e maior complexidade
FinalidadeProbabilística: cada bloco adicional torna a reversão menos provávelHá finalidade econômica após checkpoints, em minutos

Emissão de moedas: regra fixa contra regra ajustável

No Bitcoin, a recompensa por bloco começou em 50 BTC e cai pela metade a cada 210.000 blocos, como está no próprio código do Bitcoin Core. O último halving ocorreu no bloco 840.000, em 20 de abril de 2024 (UTC), quando a recompensa passou para 3,125 BTC. O limite total é de 21 milhões de unidades.

No Ethereum, não existe teto fixo. Validadores recebem ETH novo como recompensa e, desde a EIP-1559 (agosto de 2021), a parte base de cada taxa é queimada, ou seja, retirada de circulação. A oferta líquida sobe ou desce conforme o uso da rede.

Essas regras descrevem o funcionamento técnico de cada protocolo. Elas não permitem prever preço, e a relação entre emissão e cotação é objeto de debate.

Taxas e segunda camada

As duas redes têm espaço limitado por bloco, e as transações disputam esse espaço com taxas. Em períodos de muito uso, a taxa sobe. A resposta das duas foi levar parte do tráfego para fora da camada principal.

Lightning Network (Bitcoin): dois participantes abrem um canal registrado na rede principal e trocam pagamentos fora dela, quantas vezes quiserem. Só a abertura e o fechamento do canal vão para a blockchain.

Rollups (Ethereum): redes como Arbitrum, Optimism e Base executam as transações à parte e publicam os dados compactados no Ethereum. A atualização Dencun, de 13 de março de 2024, criou os "blobs" (EIP-4844), um espaço de dados temporário, guardado por cerca de 18 dias, e mais barato que o armazenamento permanente. O objetivo declarado foi reduzir as taxas das segundas camadas.

A Pectra dobrou a meta de blobs por bloco, de 3 para 6. A Fusaka, ativada em 3 de dezembro de 2025, trouxe o PeerDAS: cada nó completo passa a guardar só uma fração dos dados de blobs, o que abre caminho para aumentar a capacidade sem exigir mais de cada nó. A mesma atualização elevou o limite padrão de gás por bloco de 45 para 60 milhões.

Programabilidade: o que dá para construir

O Script do Bitcoin permite regras como multiassinatura (exigir 2 de 3 chaves) e bloqueio por tempo, mas não tem laços nem estado complexo, por escolha de segurança. A atualização Taproot, ativada em novembro de 2021 no bloco 709.632, trouxe assinaturas Schnorr e mais privacidade para transações com condições complexas.

O Ethereum foi feito para programas arbitrários. É nele que rodam tokens no padrão ERC-20, NFTs, corretoras descentralizadas e empréstimos automatizados. A Pectra trouxe a EIP-7702, que permite a um endereço comum ganhar, por autorização assinada do dono, funções de contrato inteligente, como agrupar várias operações em uma só ou ter as taxas pagas por outra conta.

O preço dessa flexibilidade é uma superfície de ataque maior. Um contrato com erro executa o erro, e falhas em contratos e em pontes entre redes já causaram perdas relevantes.

Como cada rede decide mudanças

As duas são de código aberto e mudam por propostas públicas: BIPs no Bitcoin e EIPs no Ethereum. Nenhuma mudança é imposta: ela só vale se quem roda os nós atualizar o software.

A diferença está no ritmo. No Bitcoin, mudanças de consenso levam anos de debate: o Taproot foi proposto em janeiro de 2020 e ativado em novembro de 2021. O Ethereum fez três atualizações de rede entre março de 2024 e dezembro de 2025. A página oficial da Pectra faz um alerta útil: nenhuma atualização exige ação do usuário com o próprio ETH, e quem pede para "atualizar" seu saldo está tentando aplicar um golpe.

Qual estudar primeiro, conforme seu interesse

  • Se o interesse é entender dinheiro digital e escassez programada: comece pelo texto original do Bitcoin, de nove páginas, e acompanhe blocos reais em um explorador público.
  • Se o interesse é programação: o Ethereum é o caminho, com redes de teste gratuitas onde dá para publicar um contrato sem dinheiro de verdade. O guia de como aprender a programar ajuda na base.
  • Se o interesse é guardar com segurança: antes de qualquer rede, entenda custódia e frase de recuperação em carteiras de criptomoedas.
  • Se o interesse é a regra no Brasil: veja as obrigações de corretoras e de quem declara criptoativos em regulação de criptoativos no Brasil.

Para uma decisão de investimento, o caminho é um profissional habilitado, não um comparativo técnico.

Riscos técnicos que valem para os dois

  • Chaves perdidas não têm recuperação: nenhum suporte técnico consegue devolver o acesso.
  • Transações confirmadas não são estornáveis, diferentemente do Pix com o MED.
  • Golpes de "suporte" e de "atualização" exploram a complexidade técnica para pedir a frase de recuperação. Veja como identificar phishing.
  • Criptografia de longo prazo: as assinaturas atuais das duas redes seriam vulneráveis a computadores quânticos de grande porte, tema de criptografia pós-quântica.

Fontes