Uma senha reutilizada é o caminho mais curto entre um vazamento e a sua conta bancária: o golpista testa o par e-mail e senha vazado em outros serviços até um funcionar. O fascículo "Autenticação" do CERT.br resume o problema assim: basta o atacante descobrir a senha de uma conta para acessar todas as outras em que ela é usada. A saída é ter uma senha diferente para cada serviço, e ninguém memoriza cem senhas.

O gerenciador de senhas resolve isso guardando as credenciais em um cofre criptografado, protegido por uma senha mestra ou pela biometria do aparelho. Ele cria senhas aleatórias, preenche os formulários e avisa quando alguma aparece em vazamento. As passkeys vão além: substituem a senha por um par de chaves criptográficas que não pode ser digitado em uma página falsa.

As quatro opções mais comuns, lado a lado

Os dados abaixo foram conferidos nas páginas oficiais em outubro de 2026. Preços em dólar, cobrança anual; os valores em real variam com o câmbio e os impostos.

Gerenciador de Senhas do GoogleSenhas (Apple)Bitwarden1Password
CustoGratuitoGratuitoGratuito; Premium US$ 19,80/ano; Famílias US$ 47,88/ano (até 6 pessoas)Individual US$ 3,99/mês (US$ 2,99 no 1º ano em promoção); Famílias US$ 5,99/mês
Plano gratuitoSimSimSim, com senhas e dispositivos ilimitadosNão; teste de 14 dias
Onde funcionaAndroid, Chrome em qualquer sistema, passwords.google.comiPhone, iPad, Mac (iOS 18, macOS Sequoia ou mais novos); no Windows via iCloud para Windows no Chrome e EdgeAndroid, iOS, Windows, macOS, Linux e extensões de navegadorAndroid, iOS, Windows, macOS, Linux e extensões de navegador
PasskeysSimSimSim, inclusive no plano gratuitoSim
Códigos 2FA (TOTP)Não informado na página de ajudaSim, guarda códigos de verificaçãoSó no PremiumNão informado na página de preços
CompartilhamentoNão detalhado na página de ajudaGrupo Compartilhado com família e contatos1 pessoa no gratuito; ilimitado no FamíliasItens avulsos no Individual; cofres compartilhados ilimitados no Famílias (5 pessoas)

Duas mudanças recentes mexeram nesse mapa. A Apple transformou as senhas do iCloud em um aplicativo próprio, o Senhas, a partir do iOS 18 e do macOS Sequoia, com códigos de verificação, alertas de senhas vazadas e grupos compartilhados. E a Microsoft desligou o preenchimento de senhas do Microsoft Authenticator em 2025: segundo a página de suporte da empresa, a partir de meados de agosto daquele ano as senhas salvas deixaram de ficar acessíveis no aplicativo e passaram a ser usadas pelo Edge. O Authenticator segue gerando códigos e guardando passkeys.

Qual escolher: guia rápido por perfil

Você usa só Android e Chrome. O Gerenciador de Senhas do Google já está ativo na sua conta e cobre o essencial: gera senhas, preenche, guarda passkeys e avisa quando uma senha salva aparece publicada na internet. Abra passwords.google.com para ver o que já está salvo.

Você usa iPhone e Mac. O app Senhas faz o mesmo papel, com a vantagem de guardar os códigos de verificação de dois fatores no mesmo lugar. A sincronização é feita pelas Chaves do iCloud.

Você mistura Android, iPhone e Windows, ou divide senhas com a família em aparelhos diferentes. Aqui os gerenciadores dos fabricantes começam a falhar, porque cada um prefere seu próprio ecossistema. Um gerenciador independente, como Bitwarden ou 1Password, funciona igual em todos os sistemas. O Bitwarden tem plano gratuito com senhas e dispositivos ilimitados; o 1Password é pago, com teste gratuito.

Você cuida das contas de uma pequena empresa. Prefira um gerenciador com cofres compartilhados por equipe e controle de quem acessa o quê, para não espalhar senhas por planilha e WhatsApp. Ative no próprio gerenciador a verificação em duas etapas com chave física ou passkey.

Você não quer instalar nada. O CERT.br aceita outras formas de guardar senhas, como anotá-las em papel guardado em local seguro ou gravá-las em arquivo criptografado. É melhor do que repetir a mesma senha em todo lugar.

O que olhar antes de confiar seu cofre a alguém

  • Criptografia de ponta a ponta: o fornecedor não deve conseguir ler suas senhas. O incidente da LastPass mostra por que isso importa: em dezembro de 2022, a empresa informou que criminosos copiaram cofres de clientes. Senhas e notas estavam criptografadas com AES de 256 bits, mas os endereços dos sites estavam em texto aberto, e a segurança de cada cofre passou a depender da força da senha mestra.
  • Senha mestra forte e exclusiva: ela nunca deve ser usada em outro lugar. Uma frase longa de palavras aleatórias é mais fácil de lembrar e mais difícil de quebrar.
  • Verificação em duas etapas no próprio gerenciador, de preferência com passkey ou chave física. Veja os métodos em verificação em duas etapas.
  • Recuperação: muitos gerenciadores não conseguem recuperar a senha mestra, por desenho. Descubra antes como funciona o kit de emergência ou o contato de recuperação.
  • Exportação: confira se dá para exportar o cofre, caso queira trocar de serviço.

Como criar senhas que ainda fazem sentido em 2026

A revisão das diretrizes de autenticação do NIST, órgão de padrões dos Estados Unidos, publicada em agosto de 2025 (SP 800-63B-4), mudou algumas regras antigas:

  • senhas usadas sozinhas devem ter no mínimo 15 caracteres;
  • serviços não devem exigir combinações obrigatórias de símbolos, números e maiúsculas;
  • serviços não devem forçar troca periódica, só quando houver indício de comprometimento;
  • novas senhas devem ser conferidas contra listas de senhas comuns e vazadas.

Para quem usa gerenciador, a regra prática é deixar o gerador criar senhas longas e aleatórias e só memorizar a senha mestra. Para a senha mestra, o CERT.br sugere, por exemplo, três palavras aleatórias, sem sequências de teclado nem dados pessoais.

Passkeys: o que muda na prática

Passkey (chave de acesso, no Google; chave-senha, na Apple) é uma credencial baseada nos padrões FIDO. Quando você cria uma, o aparelho gera um par de chaves: a pública fica no site, a privada fica com você. No login, o site manda um desafio e o aparelho responde com uma assinatura, liberada pela digital, pelo rosto ou pelo bloqueio de tela.

Isso traz três ganhos:

  • Não há o que digitar, então não há o que entregar em uma página falsa. Segundo a FIDO Alliance, cada passkey é vinculada ao site em que foi criada e não funciona em outro domínio. Veja como as páginas falsas operam em como identificar phishing.
  • Vazamento do site não expõe a passkey, porque o servidor guarda só a chave pública.
  • Login mais rápido. No Google, segundo a página de ajuda, criar uma passkey torna o login sem senha o padrão, e o uso da passkey dispensa a segunda etapa.

Há dois tipos. As sincronizadas ficam no gerenciador (Google, Apple, Bitwarden, 1Password) e passam para um celular novo quando você entra na conta. As vinculadas ao dispositivo, como as gravadas em uma chave física FIDO2, nunca saem do aparelho, e a FIDO Alliance as indica para quem precisa de mais garantia. A perda exige outro método de entrada.

Onde já dá para usar no Brasil, entre serviços com página oficial conferida: Conta Google (myaccount.google.com/signinoptions/passkeys), Conta Apple e WhatsApp (Configurações > Conta > Passkeys). Em agosto de 2026, o WhatsApp informou que mais de 1 bilhão de pessoas já tinham configurado uma passkey no aplicativo.

Um cuidado do próprio Google: crie passkeys apenas em aparelhos que são seus. Quem consegue desbloquear o aparelho consegue usar a passkey.

Migração em uma tarde

  1. Escolha o gerenciador pelo guia acima e proteja a conta dele com senha mestra forte e verificação em duas etapas.
  2. Importe as senhas salvas no navegador. Os gerenciadores aceitam arquivo CSV exportado do Chrome, Edge ou Safari. A Microsoft alerta que, enquanto estiver em CSV, a senha fica visível para qualquer um que tenha o arquivo: importe e apague o arquivo em seguida, inclusive da lixeira.
  3. Desative o salvamento de senhas no navegador que você não vai mais usar, para não ficar com dois cofres desatualizados.
  4. Troque primeiro as senhas das contas-chave: e-mail principal, banco, gov.br, nuvem e redes sociais, usando o gerador.
  5. Crie passkeys onde o serviço oferecer, começando pelo Google ou pela Apple.
  6. Abra o relatório de segurança do gerenciador e troque as senhas que ele marcar como repetidas, fracas ou vazadas, aos poucos.

O gerenciador é uma das camadas do plano de segurança digital. Com ele em ordem, a próxima porta a fechar é o celular e o backup.

Fontes