Um semicondutor é um material, geralmente silício, cuja condutividade elétrica pode ser ligada e desligada com precisão. Sobre esse material se constroem transistores, e bilhões de transistores formam um chip. O que torna o tema estratégico não é a física, conhecida há décadas, mas a fabricação: poucas empresas no mundo dominam cada etapa, e a falta de uma delas para a cadeia inteira.

A dimensão do setor em 2026 ajuda a entender a disputa. Segundo a SIA, associação da indústria de semicondutores dos EUA, as vendas mundiais acumuladas no ano passaram de US$ 1 trilhão já em agosto de 2026, com US$ 159,7 bilhões só naquele mês, 144% acima de agosto de 2025, puxadas pela demanda de chips para inteligência artificial.

Por que o silício funciona como interruptor

Um condutor como o cobre deixa a corrente passar sempre; um isolante como o vidro, nunca. O silício puro fica no meio do caminho, e a mágica está na dopagem: adicionar quantidades mínimas de outros elementos (fósforo, boro) cria regiões com excesso ou falta de elétrons. Ao juntar essas regiões e aplicar uma tensão num terminal de controle, a passagem de corrente entre outros dois terminais abre ou fecha.

Esse é o transistor: um interruptor sem partes móveis, controlado por eletricidade e capaz de mudar de estado bilhões de vezes por segundo. Transistores combinados formam portas lógicas, que somam, comparam e guardam bits. O chip de um celular topo de linha em 2026 reúne dezenas de bilhões deles, organizados em blocos como CPU, GPU e NPU.

Da areia ao chip em 6 etapas

1. Projeto (meses a anos)

Engenheiros descrevem o circuito em linguagens de hardware, verificam o funcionamento em simulação e geram o desenho físico de cada camada. Tudo isso depende de software de automação de projeto eletrônico (EDA), mercado concentrado em poucas empresas americanas, como Synopsys e Cadence, e de blocos licenciados, como os núcleos de processador da Arm. Empresas que só projetam e terceirizam a fabricação são chamadas de fabless: Apple, Nvidia, AMD e Qualcomm são exemplos.

2. Silício ultrapuro e wafers

O silício vem do quartzo, mas para virar chip precisa chegar a uma pureza de cerca de 99,9999999% (os chamados "nove noves"). O material fundido é puxado lentamente na forma de um cilindro monocristalino, que é fatiado em discos finos, as wafers. O padrão das fábricas modernas é o disco de 300 mm de diâmetro.

3. Fotolitografia: desenhar com luz

Cada camada do circuito é gravada projetando luz, através de uma máscara, sobre uma resina fotossensível. Quanto menor o comprimento de onda, menores os detalhes possíveis. As fábricas de ponta usam litografia por ultravioleta extremo (EUV), com luz de 13,5 nanômetros, e esses equipamentos são fornecidos por uma única empresa no mundo, a holandesa ASML. É o ponto mais estreito de toda a cadeia.

4. Deposição, gravação e dopagem, centenas de vezes

Depois de cada exposição, o wafer passa por ciclos de deposição de material, remoção seletiva (etching), implantação de íons, polimento e limpeza, tudo em salas limpas onde uma partícula de poeira inutiliza um circuito. Um chip avançado envolve centenas de passos e dezenas de camadas, incluindo a malha de fios metálicos que liga os transistores. Do wafer virgem ao wafer pronto, o processo leva semanas a meses.

5. Teste e corte

Cada chip do wafer é testado eletricamente ainda no disco. Os defeituosos são marcados, o disco é cortado e os chips bons seguem adiante. A proporção de chips aproveitáveis, o rendimento (yield), é um dos números mais vigiados da indústria, porque define o custo de cada unidade.

6. Encapsulamento

O chip recebe uma embalagem que o protege e liga seus contatos à placa do aparelho. Essa etapa, antes vista como simples, virou fronteira tecnológica: chips de IA empilham memória de alta largura de banda (HBM) ao lado do processador no mesmo pacote, e o encapsulamento avançado passou a limitar a produção tanto quanto a litografia.

Quem domina cada elo

EtapaQuem lideraPor que é difícil entrar
Software de projeto (EDA)Synopsys, Cadence, SiemensDécadas de ferramentas acumuladas e certificadas pelas fábricas
Arquitetura e blocos de IPArm, além de padrões abertos como RISC-VEcossistema de software construído em torno da arquitetura
Projeto de chips (fabless)Nvidia, Apple, Qualcomm, AMD, MediaTekEquipes grandes e custo de projeto alto
Fabricação sob encomenda (foundry)TSMC, Samsung, Intel FoundryFábricas de dezenas de bilhões de dólares
Litografia EUVASML (fornecedor único)Física extrema e cadeia própria de fornecedores
Memória (DRAM, NAND, HBM)Samsung, SK hynix, MicronEscala e processos específicos
Encapsulamento e teste (OSAT)ASE, Amkor e outras, com forte presença na ÁsiaMargens apertadas e necessidade de volume

A concentração geográfica é o que preocupa governos: boa parte da fabricação de ponta está em Taiwan e na Coreia do Sul, a litografia na Holanda e o software de projeto nos EUA. Por isso os EUA aprovaram o CHIPS and Science Act em 2022, a União Europeia o European Chips Act em 2023, e controles de exportação sobre chips e máquinas viraram instrumento de política externa.

O que significam "3 nm" e "2 nm"

Os nomes de processo já não medem nada específico no transistor: são rótulos comerciais de cada geração, e o "3 nm" de uma empresa não equivale exatamente ao de outra. O que muda de verdade entre gerações é densidade, velocidade e consumo. A TSMC informa em sua página que o processo N2 entrou em produção em volume no quarto trimestre de 2025, com transistores do tipo nanosheet.

Essa é a mudança de arquitetura mais importante em uma década: o transistor passou de plano a FinFET (uma "barbatana" vertical, por volta de 2011) e agora a gate-all-around, em que o controle envolve o canal por todos os lados para reduzir vazamento de corrente.

Para quem compra um aparelho, o número do processo diz pouco sozinho. Desempenho e bateria dependem do projeto inteiro, como explicamos em CPU, GPU, RAM e SSD e como escolher um notebook.

Onde o Brasil está em 2026

O Brasil não tem fábrica de chips de ponta e não está perto de ter. O que existe é uma política industrial antiga, uma estatal em reestruturação e empresas de encapsulamento e projeto. Os instrumentos concretos são estes:

InstrumentoO que éSituação conferida em outubro de 2026
PADISPrograma de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico da Indústria de Semicondutores, criado pela Lei 11.484/2007, com redução de tributos para quem projeta, fabrica ou encapsula semicondutores e investe em P&DA Lei 14.968/2024 manteve os incentivos até 31 de dezembro de 2029 e prevê avaliação quinquenal da política a partir de 2029
Brasil SemiconPrograma criado pela Lei 14.968, de 11 de setembro de 2024, para fortalecer pesquisa, projeto, produção e aplicação de semicondutores, displays e painéis solaresPrevê conselho gestor e atuação do BNDES; eixos e diretrizes definidos em regulamento
CEITECEstatal federal de semicondutores em Porto Alegre (RS), vinculada ao MCTI, criada em 2008, conhecida pelos chips de identificação por radiofrequência para animais, veículos e logísticaLiquidação iniciada em 2021 foi revertida pelo Decreto 11.768/2023; em notícia de abril de 2025, a empresa descreve uma nova rota tecnológica voltada a semicondutores de carbeto de silício
Encapsulamento e testeEmpresas como a HT Micron, em São Leopoldo (RS), que atua com memórias e módulos de conectividade para IoTEtapa em que o país tem operação industrial real

O carbeto de silício (SiC) é uma escolha de nicho com lógica: chips de potência desse material são usados em inversores de veículos elétricos, carregadores e sistemas de energia solar, e não exigem a litografia de ponta que torna uma fábrica de processadores inviável para o país. Em abril de 2025, a Comissão de Ciência, Tecnologia e Inovação da Câmara rejeitou um projeto que tentava anular a reversão da liquidação, segundo o próprio CEITEC.

O que isso muda para quem mora aqui

  • Preço de eletrônicos: quase todo chip de celular, notebook e console é importado. Choques na cadeia global, como a escassez de 2020 a 2022 que parou montadoras, chegam ao Brasil em prazo e preço.
  • Carreira: projeto de circuitos, verificação, teste e engenharia de processo são áreas com demanda global. Engenharia elétrica, eletrônica, física e computação são as portas de entrada, e projeto de chips pode ser feito daqui para clientes do mundo inteiro.
  • Escolha de compra: desconfie de anúncios que vendem um aparelho só pelo "processo de X nm". Testes de desempenho e autonomia de bateria dizem mais, como mostra o guia de como escolher um smartphone.

Água, energia e o custo ambiental

Uma fábrica de semicondutores consome grandes volumes de água ultrapura, energia elétrica contínua e gases e químicos especiais, alguns com alto potencial de efeito estufa. Os grandes fabricantes publicam relatórios anuais com metas de reúso de água e de energia renovável, e a escolha de onde instalar novas fábricas passa cada vez mais pela disponibilidade desses recursos. O consumo não acaba na fábrica: os data centers que rodam chips de IA viraram uma das maiores fontes de nova demanda elétrica, tema que se cruza com as tecnologias emergentes da década.

Fontes